É minha gente, é carnaval de novo. E mais uma vez o povo sai pras ruas, se transveste, bebe, esquece os problemas e bla bla bla. Pelo menos o ano começa de verdade a partir da outra semana. Eu tenho tido uma tradição carnavalesca nos meus últimos, sei lá, 30 anos, de fugir de qualquer resquício de folia. Eu me considero o túmulo do samba, com prazer!
Na verdade eu gosto de samba, daquele sambinha tipo Martinho da Vila, bacaninha, relax, (“Homem que é homem, não chora, não , não chora, quando a mulher vai embora, vai embora!”) que dá pra você ouvir num sábado a tarde, bebendo um pouco e dando risada com seus amigos.
Mas a comoção toda em torno dos sambódromos e trios elétricos e afins, isso eu não engulo. Os camarotes são alimentados com rios de dinheiro pra nada. As pessoas se perdem, engravidam, são assaltadas. Mas se divertem, o que no final das contas é o que importa.
Será?
Falando com meu amigo Gorky semana passada, o dj do Bonde do Rolê, ele me contou que o mestre Zane Lowe, da BBC1, tocou “Solta o Frango” em seu programa de rádio e que ao desanunciar a música, classificou como “carnaval vibe”.
Pois é, na Inglaterra, fonte primordial da melhor M.P.B. de todas, a nossa boa Música Popular Britânica, uma doideira de misturebas boas como o “Bond du Rol”, como eles falam por lá, é considerada carnaval.
Fiquei assim imaginando uma escola de samba carioca, das grandes, uma Beija Flor da vida, fazendo um samba enredo no estilo do Bonde, misturando Nirvana com Lecy Brandão, Sique Sique Sputinik com D. Ivone Lara. Ou qualquer outra mistura esdrúxula, como devem ser as misturas num caso desses. Fiquei imaginando o quanto isso influenciaria a cultura popular do Brasil, pelo poder de mídia que esse carnavalzão tem.
Imagino o preço do iPod caindo, pessoas nos ônibus trocando mp3 e, melhor ainda, trocando informações bacanas e atualíssimas. (Só pra me justificar um pouco, longe de mim detonar a cultura popular original brasileira que tem que existir, mas em tempos de conexões super rápidas da internet, as informações vêm de todos os lados cada vez mais e cada vez mais rápidas).
Se pensarmos nisso, logo pensaremos nos Mutantes colocando guitarra naquela musica brasileira dos anos 60. Podemos lembrar até mesmo da bossa nova, uma elitização do samba talvez, mas era bem isso, gente com um tipo diferente de informação tentando fazer algo diferente. Chico Science e sua Nação Zumbi foi um marco de mudança também da música brasileira proque eles não tiveram medo de arriscar e de ousar e de misturar. Os Raimundos também, levados menos a sério pro nao terem um discurso (até chato), como o do povo do mangue, mas Raimundos, só pra lembrar do nome da banda, era uma nordestinização dos Ramones, e não só no nome, mas na musica também.
Isso tudo pra chegar de volta ao Bonde do Rolê, a banda mais tonta de todas e mais bacana de todas hoje. Quando ano passado eu tocava o “Melô da Esfiha” nos meus sets de rock, o povo olhava feio e parava de dançar quando a voz da Marina gritava sobre as bases rockers funkeadas do Gorky. Hoje em dia, o Bonde tá em tudo quanto é lugar e ninguém mais se assusta com isso tudo. Que bom!
Agora é só esperar pra um próximo carnaval a gente ter uma festa com o Gorky como mestre de bateria, a Marina de porta bandeiras alucinada e o Pedro de mestre salas doente!
Isso sim seria um carnaval de fazer história!
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