Hairspray é um filme peculiar, pra dizer o menos.

É a refilmagem de um filme do mesmo nome…recente! Sim, o filme original é de 1988, tem menos de 20 anos e já tem uma refilmagem. Crise criativa no cinema americano? Falta de opção como podemos ver em tantas seqüências recentes? Desespero? Sim. Sim. E sim.

O original, do mestre trash John Waters, era um filme de baixo orçamento, como todos do diretor, que se passava em sua Baltimore natal, no início dos anos 60, em meio a conflitos raciais no careta e preconceituoso sul americano. O pano de fundo é um programa adolescente de dança “super branco”, tão branco que uma vez por mês tinha o “Negro Day”, o dia do negro, onde os negros dançavam e cantavam seu r&b longe dos brancos, sem misturas mesmo.

Já nos outros dias “dos brancos”, se você não fosse bonitinho, loirinho, também não dançava nem cantava, então a segregação era total: gordos demais, feios demais, altos demais, baixos demais, todo excesso era proibido na branca Baltimore. Até que uma gordinha se junta aos negros de sua escola pra dançar e acaba aparecendo no programa e ganha prestígio e audiência e se torna a queridinha do programa e do público.

Com isso tudo muda, os negros se sentem mais fortalecidos pra tentar seu espaço enquanto os brancos burgueses se sentem cada vez mais ameaçados. E o fuzuê acontece.

E o filme original, a verve, a sacanagem, a podridão vem à tona pelas mãos do debochado Waters. E como a cultura do reciclado americano impera, alguém teve a brilhante idéia de pegar esse filme maginal e transformar num musical da broadway com toda pompa e circunstância. Não é que o musical deu certo, fez sucesso e acabou virando filme?
Vamos lá, pra não nos perdermos: o filme vira musical de teatro que vira filme. De novo? É, de novo!
O Hairspray de 2007 é bacana, um musical, engraçado, colorido, exagerado, sem a sacanagem e a não sutileza do filme original, mas bacana sim, uma diversão garantida.

A história é a mesma, a gordinha, os negros, os brancos, as danças e os concursos, tudo igual, mas tudo diferente.
Coisas imperdíveis dessa nova versão: logo no início, é mostrado o tarado da cidade, interpretado pelo autor do filme original, John Waters. Rick Lake, a gordinha do filme original é uma das juradas do concurso final de dança. E o elenco é muito bom, muito bem dirigido e inacreditavelmente bem escolhido: Christopher Walken, Queen LAttifah, a maravilhosa e sumida Michelle Pfeiffer e a grande surpresa do filme, John Travolta, como a mãe gorda da gordinha dançarina. Aliás, essa história do Travolta deve ter sido por causa ainda do filme original quando o travesti Divine, a musa do diretor Waters, era a mãe da gordinha. Travolta ta quase irreconhecível, impagável, e deve ganhar vários prêmios por esse papel, pra mim a grande surpresa do filme mesmo.

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